Ronda Rousey reafirma o judô como arte marcial eficaz
O Mixed Martial Arts (sigla em inglês para o novo vale tudo ou artes marciais misturadas) vem crescendo de forma vertiginosamente. Nas redes sociais, é comum observar um público diverso que vem participando destes eventos, quer assistindo, lutando, torcendo ou palpitando. Nota-se que muito sem a menor intimidade com as lutas, são novos na área, outros - intitulando-se especialistas, acadêmicos ou qualquer coisa que o valha - se julgam acima de qualquer cidadão que queira arriscar um comentário ou até mesmo paixão sobre esta não tão nova modalidade de espetáculo, querendo cercear a liberdade de criticar, torcer pelo lutador que bem queira. A ideia não é a discussão de quem está certo ou errado. Se faz bem ou mal, se gostam ou desgostam. Quem quer assiste, quem odeia, não fica ligado até tarde para ver uma luta com 30 minutos de delay.
No entanto, não é esta a razão que estou aqui. Quero falar do UFC 168, ocorrido no dia 28 de dezembro, em Las Vegas, nos Estados Unidos, e de um resultado.
Entretanto, é necessário falar dos primórdios do MMA. A luta é algo tão antigo quanto à história da humanidade. Os povos primitivos já a praticava para a sobrevivência, para a dominação e para a defesa. A luta acompanha todo o desenvolvimento da humanidade. O fenômeno que vem ocorrendo e tem chamado a atenção de muita gente (positiva ou negativamente, não importa) é a espetacularização do combate. Para quem não é do meio, os lendários japoneses Mitsuyo Maeda e Soishiro Satake viajaram o mundo desafiando lutadores locais, derrotando-os e impondo a condição que a sua arte marcial “Jiu Jitsu Kodokan”, do shihan Jigoro Kano, era a melhor. Para se ter uma idéia, em suas contas, Mitsuyo Maeda ou Conde Koma (codinome dado a ela na Espanha) derrotou mais de mil oponentes, desde habilidosos a gigantes com o dobre de peso e altura à sua. Ao chegar ao Brasil, disseminou a sua arte, mais propriamente no norte do país. Em suas ramificações, a família Gracie se serviu de seus conhecimentos e refinou a arte do Jiu Jitsu Kodokan, o transformando no Gracie Jiu Jitsu, onde seguiu os passos do mestre, desafiando e derrotando lutadores de outras artes.
Radicados nos Estados Unidos da América, a família Gracie (agora, a luta passa a ser chamada de Brazillian Jiu Jitsu) precisava apresentar aos yankees que o BJJ era a luta mais eficiente. Desta forma, foi colocado à prova, igualmente, aos seus ancestrais, contra os outro lutadores, nasce, então, o Ultimate Fight Championship (UFC).
Desde então, o UFC vem apresentando a cada tempo a supremacia de uma arte. No início, os que assistiam devem lembrar-se das épicas vitórias do Royce Gracie e seu jiu jitsu. Teve das potentes caneladas, a era do muay thai, do boxe e, hoje, observamos o “completo”, onde domina tanto a luta em pé, como no solo.
A ideia deste tipo de evento é apresentar a arte marcial mais eficaz sobre a outra, onde precisa sobrepujar o adversário. Com o tempo, os lutadores foram se especializando nas mais diversas artes, mantendo sempre uma luta como a sua principal, mas agregando técnicas eficientes para lutar no UFC ou eventos assemelhados.
Poucas vezes, assisti lutadores derrubarem com uma técnica refinada. Muito dirão os wrestlers. Para mim, nestes casos, sem a “força absurda”, não esparramariam o seu adversário ao solo. Quando falo em técnica, lembro de um norte-americano, nascido na Armênia, que consegue com os seus golpes de judô abater seus oponentes. Contudo, nada parecido com o “fenômeno” Ronda Rousey.
A vice-campeã mundial de judô, no Rio de Janeiro em 2007, e medalha de bronze nos Jogos Olímpicos, em Pequim, em 2008, no peso médio (-70 kg), Ronda Rousey, que deixou os tatames em 2010, neste último sábado, conquistou a sua oitava vitória profissionalmente no MMA (tem três vitórias no amador), de forma entusiasmante para os seus fãs e para os milhares de praticantes de judô espalhados pelo mundo.
Rousey, pela segunda vez, derrotou a eterna rival Miesha Tate na disputa do cinturão no peso galo. Novamente, com um juji-gatame. Aliás, todas as suas vitórias são através desta chave de articulação. O que, entretanto, mais me chamou a atenção foi o arsenal utilizado até a sacramentação de sua vitória. A norte-americana abriu a sua caixa de ferramenta contra a sua conterrânea e jogou para cima de tudo que é forma. Foi o verdadeiro espetáculo do judô. Pareceu-me que não conseguiram os treinadores de Tate traçar uma defesa para este jogo.
Para quem não assistiu o combate, a peso galo já no início da luta derrubou Tate com um sumi-gaeshi. Antes do primeiro minuto, do primeiro round, joga de ippon, com o kuchiki-taoshi. Porém, Miesha também conseguiu derrubar a campeã, utilizando um kosto-gake, a 1’25’’. Pensando ter encontrado o “caminho das pedras”, Miesha investe em novo gancho por fora, só que agora Ronda, concentrada, contra golpeia com um uchi-mata. Faltando um minuto para terminar o primeiro round, Rousey joga novamente de uchi-mata.
No começo do segundo round, Rousey aplica um eficiente kouchi-gari. Em seguida, o lance mais bonito: um belíssimo harai-goshi. Depois aplica, de novo, um kuchiki-taoshi. Em seguida, junto às grades, derruba com um uki-goshi e cai num kusure kesa-gatame.
No terceiro round, Rousey inicia aplicando um sumi-gaeshi que a deixa na posição de buscar o juji-gatame. Fim de combate, mas uma vitória pegando braço da adversária.
Esta luta mostrou a supremacia de alguém altamente técnico, que possui a sua história no judô e que não é necessário baixar a porrada para vencer um combate de forma esplendorosa. Parabéns à faixa-preta pela técnica do judô!
Ah, não poderia deixar de falar sobre a lesão do Anderson Silva. São os ossos do ofício. Foi apenas uma fatalidade. No vôlei, no basquete, no hóquei, no futebol, no esqui e em tantos os outros a fratura pode existir, pode ser a consequência do esporte. Lesões todos os atletas estão suscetíveis e não foi esta a primeira e nem a última que irá escandalizar. Não é a lesão que tornará o esporte mais violento ou não.
Walter Boehl,
Faixa-preta de judô,
Jornalista formado pela PUCRS,
Graduando em Educação Física pela UFRGS.
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Quando as adversárias dela se ligarem,e aprenderem judo,não vai ser tão fácil assim.
É, mas pra ter esse nível de judô só alguém que pratica desde criança igual à Ronda.