Técnica da seleção de judô comemora as quatro medalhas, lamenta cultura futebolística do brasileiro, mas aposta em mudança para 2016
O ouro e os três bronzes conquistados em Londres farão do judô o esporte que mais deu medalhas ao Brasil nesta Olimpíada. Feliz com o desempenho de seus atletas, a técnica Rosicléia Campos comemorou a marca, falou sobre suas expectativas para a Olimpíada de 2016 e ainda explicou a polêmica em que se envolveu no desembarque da equipe em São Paulo, quando desabafou sobre as críticas feitas pelo povo brasileiro aos judocas. “Essa polêmica foi bizarra. Talvez devessem procurar a palavra ‘ignorante’ no Aurélio. Falei ignorante no sentido de desconhecer o esporte”, disse a treinadora da seleção brasileira feminina, em entrevista exclusiva ao band.com.br.
Toda a polêmica começou quando a judoca Rafaela Silva, vice-campeã mundial, foi desclassificada pelos árbitros na luta contra a húngara Hedvig Karakas, logo na segunda vez que subiu ao tatame em Londres. Depois de aplicar um golpe ilegal, a catada de perna, ela foi criticada no Twitter com algumas ofensas, algumas delas racistas. Revoltada, Rafaela respondeu com palavrões aos internautas. Rosicléia ficou inconformada e, logo que chegou ao Brasil, disparou contra os que criticaram os judocas brasileiros, chamando-os de ignorantes que não sabiam nada sobre o judô.
Durante o bate-papo, Rosicléia - que já participou de duas edições de Jogos Olímpicos como atleta (Barcelona, em 1992, e Atlanta, em 1996) - revelou ter ficado muito chateada com toda a polêmica e lamentou o fato de a cultura do brasileiro ser totalmente voltada para o futebol, embora acredita que ainda há tempo para mudar a cultura do povo até a Olimpíada de 2016.
Sobre o desempenho do judô brasileiro em Londres, a treinadora se mostrou completamente satisfeita, mas acredita que seria possível voltar ao país com um resultado ainda melhor. Rosicléia acredita que o ouro de Sarah Menezes e os bronzes de Felipe Kitadai, Rafael Silva e Mayra Aguiar possam atrair mais investimentos ao esporte para 2016 e aposta em um grande desempenho no Rio de Janeiro. “Queremos fazer uma apresentação histórica”, encerrou.
Band.com.br: Como você avalia o desempenho do judô brasileiro em Londres?
Rosicléia: Foi muito bom. Cumprimos todas as metas estabelecidas. A gente tinha estabelecido algumas metas no ciclo. Queríamos mandar uma equipe completa, fazer final feminina e conquistar quatro medalhas. E conseguimos todas. Mas poderia ter sido melhor. Algumas atletas, como a Rafaela Silva, Maria Suellen, Leandro Guilheiro e Tiago Camilo, perderam e poderiam ter ido melhor. Isso nos dá tranquilidade para trabalhar nesses quatro anos pra 2016. Tem muita gente.
Com as quatro medalhas conquistadas, o judô ultrapassou a vela como esporte que mais deu medalhas ao Brasil em Olimpíadas. Acha que deve servir de exemplo?
A gente nem entra nessa competição. É dentro do próprio judô. Nosso pensamento é superar nossas próprias marcas. Há 20 anos não levávamos uma equipe completa. O judô feminino estreou há 20 anos atrás, quando eu ainda era atleta. Quebramos todos recordes em uma data bem especial.
Quais são as expectativas para a Olimpíada do Rio? Alguma meta já foi estabelecida?
Ainda é muito cedo para falar. São quatro anos, muita coisa muda. Mas a expetativa é muito boa. Queremos fazer uma apresentação histórica. Temos algumas atletas que adoram competir em casa. Temos atletas jovens que já são experientes, e também os jovens foram para Londres que ser sparing ou aprendiz dos que competiram. Quebra aquela coisa de chegar pela primeira vez em uma Olimpíada.
Aponta alguns nomes que podem ‘estourar’ em 2016?
A equipe inteira que foi para Sheffield [cidade onde o Brasil treinou nesta Olimpíada] é muito jovem. Tem a Gabriela Chibana, Flávia Gomes e Eleudis Valentim [categorias até 48kg, 57kg e 52kg, respectivamente]. São atletas jovens que ganharam muita experiência nesta Olimpíada servindo de sparing às outras atletas, que também são jovens.
Acredita que o bom desempenho em Londres possa render frutos para 2016?
A gente sempre espera um investimento maior. Ainda mais que o esporte foi tão bem assim… Mas nós não temos do que reclamar. Tudo o que foi pedido foi atendido pela CBJ (Confederação Brasileira de Judô). Claro que quanto mais investimento, mais possibilidade de melhorar a preparação no ciclo olímpico.
De que forma você encarou toda a polêmica que foi criada por conta de sua declaração afirmando que o povo brasileiro é ignorante no judô?
Essa polêmica foi bizarra. Talvez devessem procurar a palavra ‘ignorante’ no Aurélio. Falei ignorante no sentido de desconhecer o esporte. Fui ofendida no Twitter. Isso é muito ruim. Fiquei mais triste ainda. Mas é a minoria. A grande maioria acabou dando palavras legais, de incentivo.
Por que, então, o brasileiro desconhece o judô?
O povo brasileiro acha que a Olimpíada é um evento fácil. Temos a cultura do futebol. Todo mundo tem meia culpa nisso. Você vê o Federer perder a final no tênis e ficar muito feliz com prata. Para o brasileiro isso não serve. Brasileiro tem essa postura de revolta. Não consigo entender essa postura. Pra mim é difícil, por conta da minha história no esporte. Dou minha vida. Respiro isso. Quando vejo alguém criticando é muito difícil.
Justamente por isso, acha que o fato de a próxima Olimpíada ser no Rio pode gerar ainda mais pressão para os atletas em 2016?
Agora é a hora de mudar. Tem que criar uma cultura de torcedor, participar, não vaiar. Teremos um grande espetáculo pela frente. Precisa se preparar pra isso. Temos tempo de mudar. São quatro anos para criar essa cultura, deixar o esporte mais perto do povo. Aquele mesmo cidadão que ouve futebol no rádio, tem que conhecer os atletas. Saber que a Sarah [Menezes] é medalhista. E não ficar julgando…
Band
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