Sarah Menezes, a brasileira por trás do ouro

O espírito de luta fortalece um corpo de 1,52 metros de altura e 48 quilos. Nesta entrevista, a judoca piauiense Sarah Menezes espelha o bravo povo brasileiro A medalha de […]

O espírito de luta fortalece um corpo de 1,52 metros de altura e 48 quilos. Nesta entrevista, a judoca piauiense Sarah Menezes espelha o bravo povo brasileiro

A medalha de ouro, que a judoca piauiense Sarah Menezes conquistou nas Olimpíadas de Londres 2012, reflete 13 anos de lutas. Até derrotar a romena Alina Dumitru (campeã olímpica em Pequim 2008), na categoria peso-ligeiro, a brasileira venceu o castigo dos pais (que não deixavam o vale para pegar o ônibus e ir ao judô se ela tirasse nota baixa na escola), a falta de patrocínio (“até integrar a seleção brasileira foi duro”), a distância entre Teresina e os grandes centros de treinamento do Sudeste, as dores no corpo, o medo, o “você não vai conseguir”.

Seguiu “humilde, batalhadora, sonhadora, determinada” - como se retrata nesta entrevista -, da infância até se fazer a “primeira mulher brasileira a ganhar uma medalha de ouro nas Olimpíadas”. E sempre procurou errar menos, tanto no esporte como na vida, resume. Dessa forma, a campeã olímpica também encara o caminho de volta à rotina de lutas no Brasil. “Por que vou mudar?”.

Nesta conversa, em par com o técnico Expedito Falcão (um dos seus primeiros torcedores), Sarah conta como chegou ao topo do pódio em Londres. Em meio ao sorriso sincero e à mania de roer as unhas, ela revela ainda um espírito forte e espelha o bravo povo brasileiro. Heroico por natureza.

O POVO – Quem era Sarah Menezes antes da medalha de ouro em Londres?

Sarah Menezes– A Sarah sempre foi uma menina batalhadora, dedicada aos treinos, humilde… (pausa).

OP – Sonhadora?

Sarah– Sonhadora, (o treinador Expedito Falcão, que acompanha a entrevista, faz coro), determinada, disciplinada. Eu procurava fazer as coisas corretas, para que os resultados viessem positivos.

OP – Você fala em relação ao esporte ou à vida?

Sarah– À vida, de uma maneira geral. Sempre procurei errar menos (risos).

OP – E qual a história por trás do apelido de “cajuína”?

Sarah– A cajuína é natural de Teresina, um suco feito com caju. Como iniciei o judô e tive todas as conquistas treinando na minha cidade, as pessoas me chamam de cajuína: sou um “produto made in Piauí” (risos).

OP – O judô é sua primeira memória de infância?

Sarah– É. Minha infância foi dentro do tatame. Comecei o judô com nove anos e, até os 22, tenho história muito mais no tatame do que pessoal.

OP – Mas foi escolha sua? Como o judô se apresentou para você?

Sarah– Conheci o judô na escola, foi escolha minha. Entrei pra saber como era o esporte, não tinha uma noção. Sempre gostei de desafios e acabei ficando.

OP – Que escola era essa, qual era o cenário?

Sarah– Era a escola do bairro onde moro, Bela Vista, e o cenário era a educação física: apenas o vôlei, o handebol. Acabou surgindo o judô e a capoeira.

OP – O que lhe atraiu no judô?

Sarah– Os desafios: derrubar o coleguinha, as brincadeiras que tinham bastante… Eu me divertia muito.

OP – Você tentou outro esporte?

Sarah– Só nos jogos escolares. Joguei futebol, handebol, basquete, vôlei. Eu brincava, na escola.

OP – Seu negócio era o esporte ou o estudo?

Sarah– Era o esporte. E o esporte abriu as portas também para o estudo. Tive a noção de que o estudo era importante também na vida. Deu para conciliar os dois.

OP – O esporte exigia que você estudasse?

Sarah– (antes que ela responda, o treinador afirma: “Eu exigia”) (risos). O esporte exigia, sim, o estudo!

OP – E essa história de você fugir para treinar judô? Seu pai falou isso em uma entrevista.

Sarah– Quando eu tirava uma nota baixa, o castigo era o judô. Aí, eu tinha que melhorar a disciplina, me dedicar mais aos estudos. Quando eu tirava nota baixa, meus pais não deixavam um vale, para pegar o ônibus e ir pro judô. Eu acabava fugindo. E tudo, no final, deu certo.

OP – Que lutas você teve que enfrentar no dia a dia?

Sarah– No início, dependia muito de patrocínio (para participar das seletivas). Até integrar a seleção, foi duro. Após integrar a seleção, as coisas facilitaram porque tudo é bancado pela Confederação Brasileira de Judô.

OP – Demorou muito até você integrar a seleção?

Sarah– Uns cinco anos.

OP – Em algum momento, nesse percurso, você enfrentou a descrença, a desesperança, o “você não vai conseguir”?

Sarah– Teve uma vez. Não foram nem as pessoas, foi eu mesma que quis largar o judô, com 16 anos. (O treinador levanta a mão e entra na conversa).

Expedito Falcão – A primeira vez que ela classificou, para integrar a seleção brasileira sênior, não esqueço: eu estava colocando a mala dela no carro, para levar pro aeroporto, a mãe dela disse, “Vai ser só essa viagem, ela não vai mais viajar”. E eu disse que era a primeira de muitas que ela ia participar.

OP – A Sarah ia para aonde?

Expedito– Para o Campeonato Pan-Americano e Sul-Americano Adulto, em Porto Rico e na Colômbia. (Foi a primeira viagem na seleção). Ela tinha feito uma viagem antes, em 2003. Era sub-15, na Bolívia, a gente tinha que pagar. A primeira sendo paga pela CBJ foi em 2005, quando ela integrou a seleção principal. Foi um fato marcante. E também pessoas que diziam que era utopia minha pensar que ela poderia chegar na seleção e ser medalhista olímpica. Sempre acreditei que ela podia chegar.

OP – Como você respondia a esse tipo de colocação?

Expedito– Que tinha confiança no trabalho que era feito com ela…

Sarah – No meu potencial…

Expedito– Não era no achismo, era uma convicção. Desde muito nova, que eu falava que ela seria campeã mundial e campeã olímpica.

OP – O que lhe dava a convicção?

Expedito– Feeling de treinador. Eu conhecia o judô e sabia do que ela era capaz. E também a maneira que ela encarava o treino, se dedicava. Você sente o diferencial. Ela não tinha medo de tentar superar os desafios que vinham pela frente. Tinha até uma estratégia meio kamikaze: eu mandava os meninos bater nela e, no treino, invertia isso e ela tomava como uma maneira de se superar cada vez mais… E ela também deu sorte. Um atleta não se faz sozinho, e ela pegou uma geração muito boa, uns dez meninos bons de judô. Uns quatro foram campeões brasileiros. Isso também foi fundamental para o resultado dela.

OP – Você se inspirava em alguém, Sarah?

Sarah– Eu me inspirava no Expedito (treinador), no início. Quando integrei a seleção, observava muito os medalhistas: Leandro Guilheiro, Tiago Camilo, Flávio Canto. Eles tinham um grande talento, e eu observava a maneira como eles treinavam.

OP – E quem sempre torceu por você? O Expedito já se manifestou…

Sarah– É, o Expedito foi um dos grandes torcedores mesmo, no início. E eu tenho um tio também que sempre me apoiou. Ele sempre torceu , vibrou muito. É irmão do meu pai.

OP – Ele vai às competições?

Sarah– Ele já participou, sim, mas ele tem um marcapasso e não pode ter muita emoção.

OP – Ele assistiu pela TV, as olimpíadas de Londres?

Sarah– Assistiu! É um perigo, só lembrei dele, na hora em que saí da luta.

OP – Ainda nesse percurso, você lembra de situações que lhe colocaram no limite, para repensar, desistir? E o que lhe motivava?

Sarah– Muitos treinos, competições internacionais vêm com memória positiva, autoestima, uma confiança a mais.

OP – E as situações no limite?

Sarah– Também treinos. Às vezes, chegava num nível que tinha que parar.

OP – O que foi mais difícil no caminho até Londres?

Sarah– A determinação, que tem que ter todos os dias. É muito complicado você estar sempre disposto, mas tem que estar.

Expedito – Esse era o problema. Nem todo dia você está disposto a treinar, isso é normal. Mas passar um, dois, três dias com a autoestima lá embaixo, sem vontade… Teve um período em que ela ficou assim. Tivemos esse conflito. Aí, eu tinha que mostrar pra ela o que ela queria, qual o objetivo final, aonde ela poderia chegar… Isso era uma das coisas que batia muito no treino. Eu me chateava, brigava. Ela tinha que ver que era profissional.

OP – Quando acontecia dessa autoestima ficar baixa?

Sarah– Às vezes, eu treinava e, no outro dia, acordava muito cansada e queria descansar. Mas não podia ter essa mordomia, tinha que treinar, mesmo com o corpo dolorido. É complicado.

OP – E teve algum preconceito no meio do caminho?

Sarah– As pessoas falam, né? Mas eu não vejo isso. Preconceito, só no início, quando eu tinha uns dez anos. Depois que integrei a seleção, não.

OP – Mas por ser mulher e estar no judô, por ser nordestina e estar na seleção?

Sarah– Por ser mulher e estar no judô. A parte nordestina, pelo contrário, fui sempre um exemplo dentro da seleção.

Expedito – Porque ela sempre foi diferenciada dentro do grupo. Ela é uma garota que não gostava de sair, que cumpria os prazos. Era uma atleta bem disciplinada, organizada. No grupo, tinham algumas garotas que não eram tão disciplinadas assim. Então, ela funcionava como exemplo. Era uma forma da Confederação mostrar que ela poderia ter esse desempenho, independente de ser do Nordeste, do Piauí. Ela conquistou o espaço, não foi jogada de paraquedas lá: ganhou seletivas, para poder ter o privilégio de estar integrando a seleção.

OP – A técnica, você já demonstra que aprende e sabe. E que valores você leva com você?

Sarah– Valores? (pausa)

Expedito – Os valores de cidadã, de ser uma pessoa justa, humilde. Isso são valores que tanto ela aprendeu na casa dela como dentro do tatame. Isso é fundamental para formar um grande campeão.

Sarah– Acho que o fundamental é a humildade.

Expedito – Se você tivesse conhecido ela há cinco, seis anos, seria a mesma pessoa que está vendo agora.

Sarah– As pessoas perguntam: “Pô, você foi campeã olímpica, não mudou nada?”. Eu, não. Por que vou mudar?

OP – A vitória lhe dá confiança. Mas, quando você perde, o que consegue extrair da derrota?

Sarah– Na derrota, tem grandes aprendizados. Porque você vê o erro, vê onde pode melhorar, em termos técnicos, no tatame. E também na parte da humildade.

Expedito – Tem que saber trabalhar essa derrota. Muitas vezes, ela já ganhou e eu critiquei a vitória dela: “Você ganhou, mas poderia ser melhor assim…”. Quando ela erra, tem argumentos maiores: “Você errou por causa disso…”. Então, tem que ser como aprendizado.

OP – Você é muito exigente com você mesma?

Sarah – Eu não me pressiono, mas procuro fazer, todos os dias, as minhas atividades. Não deixar de fazer. Procuro manter meu treinamento em dia, não deixar acumular.

OP – A partir da sua experiência e trajetória, em quanto tempo, você acha que se forma um campeão olímpico ou o que é preciso para essa formação?

Sarah – Formar um campeão olímpico é complicado, não sei falar o tempo. Eu iniciei com nove anos e tive o prazer de conquistar a medalha agora. Foram 13 anos de trabalho. O que vejo mais é a parte do atleta e de uma estrutura. Da confiança, vai muito da cabeça do atleta.

Expedito– Você trabalha, e a coisa é construída dia a dia. O campeão é formado em cada treino. Não tenho uma receita de formar um campeão olímpico. Tem que fazer o trabalho o mais próximo do que imagina que seja correto, para que possa tentar ter o melhor resultado possível. O trabalho é longo. Sua pergunta leva a 2016 e acho que o Brasil não vai evoluir tanto como estão pensando. Não vai ficar no “top 10”. Porque vai ter que sair do 22º para o 10º, passar 12 países… Pode chegar, nada é impossível, mas é complicado. Tem que estar formando esses atletas há, pelo menos, quatro anos. Ela (Sarah) vai pegar quase três ciclos, são quase 12 anos trabalhando. Tem que ser por aí.

OP – O que o Brasil está devendo ao esporte?

Sarah– Estrutura em todas as regiões.

Expedito – Descentralizar. Porque tem regiões com característica para cada esporte. O Ceará é uma das melhores referências do vôlei de praia. Tanto que as meninas que foram bronze treinam aqui. O Nordeste tem bons atletas velocistas. Mas você não vê centro de treinamento de atletismo no Nordeste: os atletas migram para São Paulo. Quando as confederações, os gestores começarem a ver por esse lado, pulveriza o esporte para todas as regiões. Com o judô, foi feito isso. E começaram a aparecer novos talentos.

OP – Sarah, você veio a Fortaleza contar aos alunos desse colégio sobre vitórias. Eles estão terminando o ensino médio e tendo que tomar uma decisão sobre o futuro. Você se reconhece nesses estudantes? Já teve que tomar decisões importantes na vida?

Sarah– Com certeza! Um exemplo foi o esporte, que me dediquei muito para chegar nessa medalha olímpica. E uma decisão também foi continuar estudando, me formar. Estou na metade do curso de Educação Física. A gente passa por essas fases na vida.

OP – Não sair do Piauí foi uma decisão importante?

Sarah– Sem dúvida. E hoje penso em passar para a criançada, para a juventude que está praticando o esporte, que temos capacidade de, na nossa cidade, ter grandes resultados. O que eles vão ter que ter é uma superação muito forte, para se manter dentro da própria cidade.

OP – O que você pensava enquanto o hino nacional tocava em Londres?

Sarah– Não pensei absolutamente em nada. Estava flutuando ainda, “missão cumprida”. Deu um alívio muito grande na hora do hino.

OP – A imprensa já lhe coloca entre os heróis do judô brasileiro. Ser herói é um peso pesado?

Sarah– Um pouco. Nem ligo tanto a parte do assédio, de quanto essa medalha pode pesar na minha vida, na minha carreira. Coloco o foco nos treinos, para que não fique um peso tão grande nas costas.

OP – Roer as unhas, você passou a entrevista fazendo isso, é uma mania?

Sarah– É uma mania, desde pequena (ela sorri).

OP – E quem é a Sarah Menezes depois do ouro?

Sarah– Acredito que a Sarah continua a mesma Sarah do antes. A única coisa que mudou foi o reconhecimento do público.

OP – Sua mãe, agora, deixa você viajar?

Sarah – Ah, sem dúvida! (risos).

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