Mensagem do Autor
Corria o ano de 1960, eu tinha 15 (quinze) anos, era faixa-laranja, quando fui apresentado ao excepcional, eficiente e fulminante estilo de Judô praticado por Shunji Hinata, um dos mais completos e talentosos expoentes desse esporte já surgidos no Brasil.
Sua primeira aparição internacional honrando a bandeira de nosso país deu-se aos 18 (dezoito) anos de idade no IIº Campeonato Panamericano de Judô realizado na cidade de Havana - Cuba no ano de 1956.
É importante registrar que essa competição representou para o Brasil o início de uma história repleta de glórias em torneios no exterior, pois, até aquele evento, somente, deles tínhamos conhecimento a partir de episódicas e resumidas notas jornalísticas publicadas.
Nessa ocasião ainda não existia a separação dos atletas em categorias, por peso, e sim, por faixa.
Em outras palavras, um praticante pesando 50 (cinquenta) quilos poderia enfrentar, por exemplo, um outro inscrito com mais de 120 (cento e vinte) desde que, ambos, estivessem disputando o título da mesma graduação.
Na citada competição, após emocionantes vitórias Shunji Hinata sagrou-se vice-campeão de faixa-preta do 2º° Dan sendo derrotado na luta final pelo atleta Lavern Raab (USA), então, o principal nome do Judô americano naquele evento. No torneio por equipes o Brasil foi vice-campeão.
Em 1958, aos 20 (vinte) anos, disputou o III Campeonato Panamericano realizado nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, surpreendendo, mais uma vez, seus adversários e sagrando-se campeão panamericano de Faixa Preta 2º Dan ao derrotar na decisão o atleta Juan Moreno (Argentina), vice-campeão. Naquele ano foi, também, campeão panamericano, por equipes.
Em 1960, durante o IV Campeonato Panamericano na cidade do México, aos 22 anos, foi vice-campeão da categoria faixa-preta do 3º Dan, sendo derrotado na luta final pelo atleta Manfred Matt (Canadá). É importante destacar que esta luta foi dificílima para seu adversário e que o mesmo, no dia seguinte, sagrou-se campeão absoluto da competição. A participação de Hinata no torneio por equipes foi fundamental para o Brasil sagrar-se bicampeão dessa disputa.
Repetiu suas vitoriosas performances nos anos seguintes, nos campeonatos estaduais, regionais e nacionais, em razão de possuir um estilo de luta, extremamente, veloz, agressivo e rico em poderosos contragolpes e ataques sucessivos pelos lados direito e esquerdo, simultaneamente.
Sua coragem e destreza combativa surpreendiam até mesmo os mais experientes oponentes.
Certa ocasião assisti, em uma de suas lutas travadas na inesquecível Sede Velha do Clube de Regatas do Flamengo (Praia do Flamengo 66/68, Rio de Janeiro, RJ.) e a poucos metros de distância de onde me encontrava, um especialista em técnica no solo (ne-waza) com peso bem superior ao dele, aplicar e encaixar uma chave em seu braço direito, algo final para qualquer combatente.
Por mais incrível que possa parecer Shunji Hinata flexionou suas pernas e o levantou do solo até a altura de seus ombros. O juiz central interrompeu a luta. Ao reiniciá-la, o mestre Hinata aplicou um fulminante uchimata, de esquerda, em seu oponente, derrotando-o por ippon (queda completa). A plateia explodiu em aplausos.
Assim era o vitorioso atleta alvo desta homenagem, alguém que saiu da vida desportiva esquecido, abandonado e desassistido pelas autoridades, muito embora tenha honrado, inúmeras vezes, a bandeira de sua pátria em uma época que ainda engatinhávamos nas competições internacionais e nos contentávamos em ouvir a repetitiva, cansativa e passiva máxima, rotineiramente, declamada por alguns dirigentes para justificarem sucessivos fracassos: “o importante não é vencer é competir”.
Estou convicto de que foram os exemplos deixados por praticantes e mestres do quilate de Shunji Hinata, Luiz Alberto Gama de Mendonça, Massayoshi Kawakami,Mateus Suguizaki, Oswaldo Cupertino Simões Filho, Rosicleia Campos, Hickari Kurachi, Fuyuo Oide, Rudolf de Otero Hermanny, Akira Yamamoto, Lhofei Shiozawa, Haroldo Brito, Chiaki Ishi, Leopoldo de Lucca, Manabo Kurachi, George K Medhi, Geraldo Bernardes, Takeshi Miura, Haruo Nishimura, Shigueto Yamazaki, Milton Rossi, Álvaro Loureiro e por centenas de outros expoentes, os principais responsáveis pelo judô brasileiro encontrar-se, nos dias de hoje, celebrado e em posição de destaque nas competições internacionais que participa.
O início de sua trajetória
Ricardo (nome de batismo) Shunji Hinata, nasceu em São Paulo, no dia 09 de agosto de 1938 (mesmo ano de nascimento daquele que viria a ser seu principal adversário no futuro Estado do Rio de Janeiro: o judoca peso-pesado Luiz Alberto Gama de Mendonça).
Foi o primogênito de 08 (oito) filhos do casal de imigrantes japoneses Meijiro e Sumiko Hinata, que desembarcaram no porto de Santos-SP, do navio África-Maru, pouco antes de eclodir a II Grande Guerra Mundial.
Instalaram-se em Tapiraí, município do interior paulista distante 140 km da capital São Paulo.
O Clã Hinata era composto por Meijiro Hinata (pai), Sra. Sumiko Hinata (mãe), Shunji Hinata (primogênito), Masao Hinata (Praticou até Sho-dan, 71 anos em 2012), Yasue Hinata (66 anos), Kimie Hinata (64 anos), Yoshio Hinata (Sho-dan - 62 anos), Sumie Hinata (60 anos), Hideo Hinata (55 anos). Um outro irmão chamado Toshio Hinata faleceu, prematuramente, aos 38 anos.
Iniciou o aprendizado de Judô na cidade de Tapiraí, São Paulo, com o Prof. Inada. Teve uma trajetória brilhante já a partir dos 12 (doze) anos de idade.
Anos mais tarde, a família - já bem maior- mudou-se para a capital, instalando-se em uma casa no bairro de Vila Carrão.
Ao passar a residir em São Paulo matriculou-se na Academia do Prof. Hickari Kurachi onde se consagrou vencendo todas as competições em que participou.
Ficou famosa sua performance, em 1955, em torneio Katinuke (lutas seguidas até perder), realizado na Associação Budokan do Mestre Ryuzo Ogawa, quando bateu o recorde de número de vitórias sucessivas.

1955 - Equipe da Academia Kurachi-Budokan reconhecida como a Seleção da Cidade de Santos-SP. A foto original estava em estado tão precário que não foi possível reconstituir o rosto do atleta Hiroshi Minakawa (o primeiro a partir da esquerda).
Este escriba pede ajuda aos internautas leitores que caso possuam uma cópia da imagem acima reproduzida e/ou algum dado adicional que possa enriquecer a presente matéria favor enviá-los ao endereço [email protected] para que sejam, imediatamente, incorporados ao texto.
1956 - II Panamericano de Judô - Havana - Cuba
1956 - Delegação Brasileira - Da esquerda para a direita: Massayoshi Kawakami, Augusto Cordeiro, Shunji Hinata, Paulo Falcão (dirigente), Hickari Kurachi, Luiz Alberto Gama de Mendonça e Milton Rossi.
16/05/1956 - Homenagem aos integrantes da seleção brasileira no IIº Panamericano de Judô, em Cuba, momentos antes de competirem no Torneio da Budokan no Ginásio do Pacaembu, Cidade de São Paulo, SP.
1958 - III Panamericano de Judô – Rio de Janeiro – Brasil
1958 - Equipe do Brasil Campeã Panamericana
Os inúmeros admiradores que Shunji Hinata reuniu em torno de si após o seu espetacular desempenho, aos 18 (dezoito), 20 (vinte) e 22 (vinte e dois) anos, nos campeonatos panamericanos de Judô realizados, respectivamente, em 1956 (Havana - Cuba), em 1958 (Rio, SP e BH -Brasil), e em 1960 (Cidade do México) considerado, à época, o mais importante torneio internacional desse esporte para os atletas do continente americano, permitiu a formação de um mito esportivo e, a partir daí, criadas condições para que ele se instalasse na cidade do Rio de Janeiro.
Em 1958, fãs e entusiasmados judocas montaram a primeira Academia Japonesa de Judô na Rua Siqueira Campos, 43 (Centro Comercial de Copacabana). Em 1960 a entidade foi transferida para a sobreloja 202 da Rua Aires Saldanha 92, no mesmo bairro de Copacabana, na cidade do Rio de Janeiro, endereço onde permaneceu até encerrar suas atividades.
Através da Academia Japonesa Shunji Hinata realizou um importante trabalho na cidade do Rio de Janeiro, então capital do antigo Estado da Guanabara, disciplinando, treinando, educando e formando centenas de qualificados desportistas, alguns dos quais se tornaram, ao longo dos anos, professores de sucessivas gerações de judocas.
Embora temeroso de omitir alguns nomes, passeiam pela memória de todos nós as lembranças deixadas por inúmeros de seus discípulos ou daqueles em que muito contribuiu para formar e aperfeiçoar, tais como: Arlindo Costa (várias vezes campeão carioca), Egberto Alves (prof. universitário), Hélcio Gama (campeão carioca e ex-professor de judô do Clube Naval Piraquê), Guilherme Kurtz (campeão carioca, médico, prof. universitário), Henrique Pereira da Fonseca Netto (campeão carioca, Prof. Dr. da UFRJ) Oswaldo Alves de Albuquerque (mestre de judô e professor de lutadores do MMA), Sergio Tenius (campeão brasileiro militar), Carlos Bartholomeu Cavalcante (campeão carioca e brasileiro), Edson Leandro da Silva, o saudoso “Sansão” (campeão carioca e brasileiro), Yoshio Hinata (campeão carioca), José Carlos Sarkis (campeão carioca), Fernando Barcelos (campeão carioca), Marco Aurélio (campeão carioca), Benedicto Gomes (campeão carioca e vice-campeão brasileiro), Ângelo Antônio Guerra Póvoa “Presunto”, Antonio Carlos Melo “Chuca” (campeão carioca e brasileiro juvenil), Heitor Taborda, Julio Gargiulo, Klerman Wanderley Lopes (campeão carioca), Luiz Virgilio Castro de Moura (campeão carioca, brasileiro, pan-americano, ex-atleta olímpico), Correia Guimarães (campeão carioca e brasileiro juvenil, hoje, Almirante-de-Esquadra FN), além de um grande contingente de japoneses natos que o procuravam no Rio para a prática do Judô (Hirofume Fujikawa (naturalizado mais tarde, foi campeão carioca e brasileiro), Issao Okada, Hiroshi Yamagushi, Akira Sato, Hideo Nakatami e H. Tanaka, mestre de Karatê-do no Rio de Janeiro.
1960 - IV Campeonato Panamericano de Judô - Cidade do México – México
11/10/1960 - Shunji Hinata derrotando o representante da Argentina Yamasato sob o olhar atento do árbitro Frank Hatashita. Disputou a final da categoria Faixa-preta 3º Dan contra o campeão canadense Manfred Matt que após luta duríssima conseguiu derrotar o atleta brasileiro. No dia seguinte, Matt veio a sagrar-se campeão absoluto da competição superando o nosso representante Massayoshi Kawakami.
1960 - Cidade do México após a conquista do Bicampeonato Panamericano.
1960 - Sede Velha do C R Flamengo, Shunji Hinata concentrado, como sempre, aguardando o início de mais uma competição.
Shunji Hinata em 1960 sendo cumprimentado após conquistar mais um título.
No ano de 1965, em companhia dos conhecidos mestres Nagashima (ACM), Terazaki (SUZANO) e do prof. Pompílio (Academia Nippon).
1965 - Campeonato Brasileiro de Judô - Rio de Janeiro - Montanha Clube - Shunji Hinata (7º em pé) participante da equipe do antigo Estado da Guanabara.
Cartão de Visita da Academia Japonesa
Sede da Academia Japonesa de Judô (2º e último endereço)
01/10/1966 - Academia Japonesa - Hinata e sua Turma Infantil tendo ao fundo o Professor Assistente Milton
PRINCIPAIS TÍTULOS CONQUISTADOS NA CARREIRA ESPORTIVA
| ANO | CAMPEONATO | LOCAL | TÍTULO |
| Campeonatos Ju-Kendô Remmei | São Paulo - SP | Diversos Títulos a catalogar | |
| Campeonatos da Budokan | São Paulo - SP | Diversos Títulos a catalogar | |
| Campeonatos Regionais S Paulo | São Paulo | Diversos Títulos a catalogar | |
| Campeonatos Estado de S Paulo | São Paulo - SP | Diversos Títulos a catalogar | |
| 1956 | II Pan-Americano Judô | Havana - Cuba | Vice-campeão 2º Dan |
| 1957 | Campeonato Brasileiro | Rio de Janeiro - RJ | Campeão 2º Dan (São Paulo) |
| Campeonato Brasileiro | Rio de Janeiro - RJ | Campeão Equipe (São Paulo) | |
| 1958 | Campeonato Estado Guanabara | Rio de Janeiro - RJ | Campeão 2º Dan |
| 1958 | III Pan-Americano Judô | RJ, SP, BH | Campeão 2º Dan |
| III Pan-Americano Judô | RJ, SP, BH | Campeão Equipe | |
| 1958 | Campeonato Brasileiro | BH | Campeão 2º Dan |
| 1959 | Campeonato Estado Guanabara | Rio de Janeiro - RJ | Campeão 3º Dan |
| 1959 | Campeonato Brasileiro | Porto Alegre - RS | Campeão 3º Dan |
| Campeonato Brasileiro | Porto Alegre - RS | Campeão Equipe (Rio de Janeiro) | |
| 1960 | IV Pan-Americano Judô | Cidade do México | Vice-campeão 3º Dan |
| IV Pan-Americano Judô | Cidade do México | Bicampeão Equipe | |
| 1960 | Campeonato Brasileiro | Brasília – DF. | Campeão 3º Dan |
| Campeonato Brasileiro | Brasília – DF. | Campeão Equipe (Rio de Janeiro) | |
| 1961 | Campeonato Estado Guanabara | Rio de Janeiro | Campeão Open (Absoluto) |
| 1962 | Campeonato Brasileiro | São Paulo – SP | Campeão Peso-Médio |
| 1965 | Campeonato Estado Guanabara | Rio de Janeiro - RJ | Campeão Peso-Leve |
Obs.: os dados da tabela acima são passíveis de complementação visto não contemplarem a totalidade das colocações obtidas pelo mestre Shunji Hinata em campeonatos estaduais e regionais disputados no Estado de São Paulo ou nas edições em que participou dos torneios da Associação Budokan de Judô e do Ju-Kendô Remmei, ambos, realizados, anualmente, no mês de Julho, no Ginásio do Pacaembu, São Paulo-SP., com a presença de centenas de atletas dos principais centros de judô existentes no Brasil, do século passado.
Revezes Sofridos
Uma grave lesão na musculatura de seu braço esquerdo fez com que Shunji Hinata fosse, progressivamente, perdendo sua famosa pegada a ponto de não mais possuir força, sequer, para puxar a gola ou a manga do kimono de seus oponentes.
A partir daí, em face de seu despreparo para lidar com situações administrativo-financeiras que exigissem um mínimo de organização e escolaridade, sua escola atravessou um período difícil, em parte, decorrente da asfixia psicológica que qualquer grande cidade pode causar naqueles que a procuram em busca da realização de sonhos de uma vida melhor, motivados por promessas, luzes, encantamentos e avaliações superficiais.
Nessa mesma ocasião, inúmeros de seus alunos e atletas descontentes com a triste situação por que passava a Academia Japonesa, saíram da entidade e fundaram o Copa Judô Clube, que despontou, de imediato, como um novo centro de formação de excelentes praticantes que passaram a conquistar seguidos títulos em campeonatos estaduais, regionais e nacionais.
Este fato agravou, ainda mais a crise emocional por que passava o mestre Shunji Hinata. Parou de treinar, afastou-se da Academia, carente de recursos participou de lutas de Tele-Catch, e procurou estabelecer-se com a família em Porto Alegre, Estado do Rio Grande do Sul, para onde viajou, desligando-se das responsabilidades deixadas na cidade do Rio de Janeiro, a ponto de não comparecer a uma audiência judicial para a qual fora citado por motivo de dívida, sendo julgado a revelia e condenado a cumprir pena.
Seu irmão Yoshio em emocionado relato informou a desestruturação psicológica que tal episódio causou a um destemido competidor e competente educador esportivo com o histórico de Shunji Hinata.
Enfatizou, na oportunidade, o generoso e solidário papel desempenhado por alguns de seus amigos e admiradores, dentre eles, o Mestre de Judô e então Capitão do Exército Manuel Pacheco que conseguiram sua transferência para o estado do Rio Grande do Sul, onde já havia se estabelecido, para lá cumprir sua penalidade legal, ao mesmo tempo em que passou a dar aulas de Judô na Policia Estadual, o que lhe permitiu obter o seu primeiro registro em carteira profissional.
Afirmou, também, que este fato permitiu, anos mais tarde, que sua esposa de quem não se separou, judicialmente, e seu filho pudessem beneficiar-se da integralidade de sua aposentadoria e, tempos após, de sua pensão.
Em Porto Alegre ministrou aulas na Sogipa, Colégio Militar, Cia. de Guardas, Lansul, ACM, sendo indicado para o cargo de diretor-técnico da seleção gaúcha (gestão do Presidente Loanzi), dirigindo seus atletas no II Judogam, promovido no Ginásio do Maracanãzinho e no Campeonato Brasileiro realizado em São Paulo.
Em 1980, aos 42 anos, sofreu um acidente vascular cerebral que o deixou com graves sequelas, dentre elas uma paralisia em seu lado esquerdo.
Em face de um quadro de saúde debilitado, familiares optaram por transferi-lo para São Paulo, permanecendo naquela capital gaúcha sua esposa Maria Cecília e o filho Maurício Hinata que lhe deu, posteriormente, 02 (dois) netos.
Foi residir na casa de seu irmão Masao, que já cuidava, também, de sua mãe Dona Sumiko.
Shunji Hinata após o derrame, por não se tratar e muito menos aceitar qualquer ajuda que lhe fosse oferecida, talvez, até, por um sentimento de vergonha pelo que estava passando, ficou com sequelas na fala. Tentava comunicar-se e somente conseguia fazê-lo com muita dificuldade.
Seu braço esquerdo não se movimentava, sua perna mancava, mas, mesmo assim, encontrava ânimo para viver, caminhando - por horas a fio e, diariamente - pelas ruas da cidade de São Paulo.
Em uma dessa ocasiões conheceu uma senhora, Dona Maria, residente no centro daquele município e mãe de 02 (dois) filhos adultos.
Esta cidadã lhe deu o importante amparo psicológico de que necessitava em fase tão difícil de sua vida. Relacionaram-se durante 05 (cinco) anos, até que a mesma adoeceu e veio a falecer.
Em meados de 1983 seu irmão Yoshio esteve com um de seus antigos companheiros de dojô, o conhecido médico e campeoníssimo judoca Dr. Haruo Nishimura que ao tomar conhecimento da difícil situação de Shunji Hinata, prontamente, se ofereceu para ajudar em sua recuperação através da Clínica que possuía no bairro de Paraíso, na cidade de São Paulo, pela grande admiração que nutria por ele, a quem considerava dono do judô mais eficiente e vistoso daquelas 03 (três) últimas décadas.
Por mais que sua família lhe pedisse Shunji não quis ir se consultar de forma alguma. Ele não aceitava aparecer diante de amigos e contemporâneos de shiai-jôs no estado de saúde e na precária situação financeira em que se encontrava.
Yoshio Hinata relembrou que outros discípulos de seu querido irmão tentaram ajudá-lo, dentre eles Henrique Pereira da Fonseca Netto, que, durante uma visita que fez, em sua companhia, ao antigo mestre, em São Paulo, após abraçá-lo e ambos chorarem emocionados, naquele encontro, pediu para que ele o acompanhasse à cidade do Rio de Janeiro com vistas a propiciar-lhe um adequado tratamento. Embora agradecido, uma vez mais não aceitou qualquer ajuda.
Em 12/10/1997, com o falecimento de sua mãe Dona Sumiko, Shunji Hinata foi morar na loja que seus irmãos Yoshio e Kimie possuíam, e aonde permaneceu até o dia de sua morte.
No dia 14 de abril de 2006, vítima de uma grave pneumonia, veio a falecer aos 68 anos, em São Paulo, seu estado natal.
A grande amiga e dedicada irmã Kimie que ficou a seu lado até seu último suspiro providenciou todo o procedimento religioso budista Sokka-Gakai, sendo seu corpo cremado e suas cinzas guardadas na urna da família Hinata.
Em respeito à grande contribuição do Mestre Shunji Hinata ao desenvolvimento do Judô, no Brasil, gostaria de pedir aos internautas que meditassem e retivessem em suas mentes o conteúdo da última imagem que consegui obter sobre aquele valoroso atleta brasileiro.
Ela apresenta um educador em final de carreira e, embora com saúde debilitada, ainda conseguindo motivar, inclusive, infantes a prosseguirem na árdua missão de disciplinar, educar, treinar e formar cidadãos de bem, como o hoje Mestre Kodansha Sergio Guido Zimermann, nascido em 07/07/1957 (rosto em destaque na lateral esquerda da fotografia), detentor da faixa-preta do 6° DAN desde 2001, formado e pós-graduado em Educação Física, exercendo, atualmente, o cargo de diretor de escola da rede estadual de ensino do Rio Grande do Sul, tendo trabalhado na Federação Gaúcha de Judô, durante vários anos na qualidade de diretor-técnico. Faz parte da Comissão Estadual de graus daquela entidade.
Ele resumiu sua fala em relação àquele de quem foi discípulo com a seguinte reflexão: “Será que se naquela época não fosse o mestre Shunji Hinata o professor da SOGIPA, eu teria encontrado a necessária motivação para traçar minha trajetória profissional nessa direção? Devo, sim, e muito, a ele, pelo caminho pedagógico que escolhi e do orgulho que sinto por havê-lo trilhado.”
Yoshio Hinata assim se expressou a respeito de seu inesquecível irmão e mestre:
“O que mais poderia transmitir aos estudiosos e amantes do Judô sobre o meu saudoso e querido irmão Shunji Hinata, um atleta brasileiro que despontou, sozinho, precocemente, e com raro brilhantismo nos shiai-jôs brasileiros e internacionais, carecendo, porém, de escolaridade que o amparasse, experiência de vida que o defendesse ou saber familiar que lhe orientasse, permitindo-lhe trilhar, em uma grande metrópole e em segurança, pelo dificílimo, enganador e passageiro caminho do sucesso profissional alcançado já a partir de seus 18 (dezoito) anos?”
Finalizo agradecendo a preciosa colaboração prestada a este escriba por parte de Yoshio Hinata, Henrique Pereira da Fonseca Netto, José Carlos Sarkis, Paulo Vicente da Silva, Rudolf de Otero Hermanny, José de Almeida, Luiz Alberto Gama de Mendonça, Sergio Guido Zimermann, Oswaldo Cupertino Simões Filho, Chuno Mesquita, Emanuel Mattar e Harry Rutmann sem a qual não teria sido possível resgatar dados e imagens - alguns com mais de 06 (seis) décadas - inseridos nesta matéria biográfica de um inesquecível atleta do judô brasileiro.
| Autor | Augusto Acioli de Oliveira |
| Judô Clube Juventude (1964-1971) | |
| 3º Dan diplomado pelo Prof. Fuyuo Oide da Associação Lapa-Budokan em 25/05/1969 |
Blog Velho Escriba














































Excelente resgate da história do Sensei Hinata!!! A minha “alfabetização” no Karatê começou com Sensei Hinata, em Porto Alegre na UGAPOCI. Na mesma época que os Sensei Arthur, Hélio, Fernando e outros… Ainda lembro da fisionomia sempre impassível do Sensei Hinata, mas que também gostava de contar algumas piadas e dar risada. Mais tarde continuei meu treinamento com o Sensei Akira Taniguchi, para o qual o Sensei Hinata transferiu nossa turma de karatecas. Atualmente sou professor de Karatê Shotokan - 4º Dan CBK. Oss!
Parabéns ao Portal, em geral, e pela excelente matéria do professor Augusto Acioli de Oliveira. Sensei Hinata, além de expert em judo, no qual foi Bicampeão Panamericano, também praticava o Karate Gojuryu sob a supervisão do Mestre Akamine, introdutor desse estilo de luta no Brasil e, depois, no final dos anos setenta, prosseguiu em Porto Alegre, com o Mestre Akira Taniguchi (http://www.padilla.adv.br/desportivo/artesmarciais/Akira.pdf), e se integrou à história do Goju e da ACM. No episódio da prisão por processo de dívida que correu a revelia, Carlos Alberto Portolan, liderança da Federação de Pugilismo que, naquele tempo, congregava todas as artes marciais em Departamentos, lembra que, naquele ambiente hostil, controlado pelos bandidados impondo subserviência violentamente, Sensei Hinata se defendeu, nocauteando os agressores…
Atenciosamente,
Professor PADILLA
http://lattes.cnpq.br/3168948157129653
UFRGS Faculdade de Direito Campus Centro
Dept. de Direito Privado e Processo Civil
NIETE, Núcleo Interdisciplinar de Estudos Transdisciplinares sobre Espiritualidade*
Faixa preta 5º Dan CBK registro 5009 de 26.10.2007
Presidente do TJD-FGK - Federação Gaúcha de Karate
Presidente do STJD-CBMTT - Confederação Brasileira de MuayThai Tradicional
Presidente do SINDIPLAM/RS - Sindicato dos Profissionais em Lutas, Artes Marciais e Instrutores de Defesa Pessoal do Estado do Rio Grande do Sul
*Criado durante o II Salão de Extensão, o NIETE-UFRGS constitui-se em um espaço singular de reflexão sobre a espiritualidade no processo de produção do conhecimento.
Tive o prazer e a honra de ter recebido preciosos ensinamentos quando o Sensei Hinata ministrou aulas e treinos no saudoso Sport Club Ruy Barbosa (centro de Porto Alegre). Impressionava a facilidade com que aplicava as técnicas. Parecia algo mágico e com tal leveza que nos deixava impressionados. Fazer randori com ele, então, era uma aula extra, pois caiamos muito e aprendíamos bastante. Foi uma época muito produtiva para quem compartilhou seus ensinamentos. Extremamente técnico e uma excelente pessoa. Em 1965 o assisti competindo no Rio dando show nos tatames.
Grande matéria e homenagem ao sensei Hinata! Mas ele também ensinou Karate em Porto Alegre (RS)! Treinei com ele alguns anos. O seu Karate era de sua juventude, nunca passou do 1o. dan, mas fez bons alunos, que pouco depois passaram a treinar com Akira Taniguchi.Que Deus o tenha.
Sou instrutor de Karate-do Goju-ryu na ACM.
Prabéns ao autor pelo excelente trabalho, retomando a história de um dos grndes judocas brasileiros, por muitos esquecidos. Precisamos de mais pessoas que recontem a história dos judocas que construiram nosso esporte no Brasil.
Quero agradecer todos os amigos e alunos e a todos que de alguma forma participaram com a materia , e sobretudo ao Mestre Jose Gomes de Medeiros (Kodansha) que foi aluno tambem do Mestre Kurachi na Academia de Santos e foram companheiros naquele periodo aureo, juntamente com o Jornalista Gilmar Domingos de Oliveira tambem de Santos-SP que editou homenagem ao Shunji Hinata no site http://www.almanaqueesportivodesantos.com.br.
E creio que não é um mero acaso no meio de 7 bilhões de pessoas termos a felicidade desse relacionamento sublime e de ter o Mestre Acioli com a sua sensibilidade e profundamente humanitario em resgatar os valores dos Judocas do passado.
Eternamente grato