Nascida a 16 de janeiro de 1982, em Coimbra, distante cerca de 200 km da capital portuguesa Lisboa, Joana Ramos ou, simplesmente, Jisa, é uma esportista nata. Apaixonada por esportes, na escola praticou quase todas as atividades extracurriculares (tênis, futsal e basquetebol). Se destacava em todos, competia nos torneios internos, mas era o esporte do norte-americano Michael Jordan que ela mais se interessava. Porém, aos 13 anos, mais por curiosidade do que a indicação de alguns amigos que praticavam judô, Joana foi conhecer o “caminho suave”. Não se contentou em apenas conhecer, mas também quis praticar. Assim sendo, iniciou no pequeno clube de seu bairro, o Clube de Futebol de Santa Clara. Hoje, 17 anos depois, não poderia imaginar que está competindo em alto nível entre as melhores atletas do mundo.
Vejam a entrevista exclusiva que Joana Ramos concedeu ao Portal do Judô falando de sua preparação para a Olimpíada de Londres, de sua carreira, suas aspirações e futuro quando se aposentar dos tatames.
| FICHA TÉCNICA |
| Nome: Joana Isabel Ventura Ramos;
Idade: 30 anos; Clube atual: Sporting Clube de Portugal; Local de nascimento: Coimbra, Portugal; Reside: em Lisboa. |
Principais títulos:
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PORTAL DO JUDÔ - Durante a sua carreira, você saiu de Portugal e treinou em equipes da Alemanha e Espanha, o que te motivou a deixar o seu país para treinar nestes lugares?
JOANA RAMOS - Na verdade, o que aconteceu foi que eu fui contratada para representar os clubes alemão JC Rüsselsheim e espanhol Judokan Valência, nas respectivas ligas, a Bundesliga na Alemanha e a liga de Madrid, na Espanha, na categoria meio-leve (-52 kg). Não treinei nesses clubes, apenas os representava e ganhava algum dinheiro com isso. Essa era a principal motivação para mim. Apenas me ausentava de Portugal durante dois, três dias, enquanto durasse a competição e só. Em Portugal, não é normal haver atletas de Judô profissionais. Os clubes não pagam aos atletas para que eles os representem, às vezes, é exatamente o contrário, em alguns clubes os atletas têm de pagar para fazer Judô e poderem treinar. Além, do dinheiro que recebia, essas competições de equipes serviam-me como treino competitivo e ganho de experiência.
PJ - Você conquistou algumas medalhas importantes em Grand Prix, mas para você a de prata em Moscou, perdendo a final para Yuka Nishida teve um sabor especial, ou as do Europeu ou da Bundsligue, da Liga Madrilhena o do Nacional de Portugal foram mais interessantes? Ou alguma outra aqui não citada?
JR - Todas as medalhas têm um sabor especial… Todas envolvem sem exceção, muito trabalho, superação, persistência, dedicação e vitórias. Vitórias sobre adversárias que a gente respeita e também que a gente admira, muitas vezes, pela sua qualidade enquanto atletas, pelo seu nível competitivo.
A conquista de qualquer medalha faz brotar em mim um sentimento de realização pessoal que é tanto maior quanto maior for o nível competitivo das minhas adversárias assim como os obstáculos que ultrapassei para conquistá-la.
As medalhas dos Grand Slams e Grand Prix são especiais, como é óbvio, uma vez que estas são competições de altíssimo nível, mas foram obtidas tendo em vista um objetivo maior, garantir a participação olímpica.
A medalha do Europeu tem sem dúvida um grande valor, é a que a meu ver, a que merece ser destacada, pois vale por si mesma. O Campeonato da Europa, para mim, é a competição mais importante depois dos jogos olímpicos e do campeonato mundial. Uma medalha neste campeonato é um marco para qualquer judoca europeu, uma vez que é um campeonato sempre muito, muito competitivo. Era um objetivo que há muito tempo perseguia e que teimava em não se concretizar.
PJ - Você não lutou em 2004 na Olimpíada de Atenas porquanto era do mesmo peso da Telma Monteiro, naquela época não pensou em mudar de peso por causa disto?
JR - A verdade é que não. Nem me passou pela cabeça mudar de categoria naquela altura.
Eu me sentia muito bem lutando no meio leve (-52 kg), era a 4ª do ranking europeu e perdi a vaga olímpica apenas por um shido, na final da Copa do Mundo de Roma, contra a Telma, mas fiz os mínimos olímpicos. Na minha cabeça, era possível evoluir e voltar em 2005, ainda, mais forte e marcar nas principais competições naquele peso. Naquela altura estávamos no mesmo nível, só que, na minha opinião, eu estava mais desgastada devido ter feito quase todas as competições do circuito europeu de 2003 e 2004. Acontece, que a certa altura, por volta de 2006, a Telma meteu a fasquia muito alta, para conseguir passá-la já não bastava obter medalha, eu teria que ganhar as competições em que entrava, isso aliado a crescentes problemas de peso com que me deparei, ditaram que no final de 2006 eu tivesse optado por lutar no leve (-57 kg).
PJ - Na última Olimpíada (Pequim 2008) você não conseguiu participar, em Londres, com a Telma competindo na categoria leve (-57kg) e você – no meio leve (-52kg) - está praticamente qualificada, como tem sido os seus dias aos que antecedem a divulgação da lista dos participantes e quais são suas expectativas para a sua primeira olimpíada?
JR - Bom, meus dias têm sido mais tranquilos agora, uma vez que já consegui a classificação para a olimpíada e me recuperei das lesões que me assombraram nos últimos quatro meses do ano passado. Agora, posso treinar sem limitações, dar o máximo em cada treino e a cada dia, tendo como foco a olimpíada. É tudo o que eu preciso.
Quanto às minhas expectativas, os Jogos olímpicos têm um peso muito grande, mas, na verdade, tudo não vai passar de mais uma competição de Judô, com as “velhas” adversárias de tantas outras competições. Eu acredito que possa chegar no pódio, é para isso que trabalho, é isso mesmo que me motiva, já atingi, noutras competições, lugares de relevo, por isso sei que é possível. As minhas expectativas são altas, mas também não poderiam ser de outra forma. Acho que a grande dificuldade dessa competição é o fato de naquele dia, nada poder falhar, e de haver a necessidade de tudo estar a 100% ao longo do tão esperado dia. Tenho consciência que há muitas favoritas e que os meus 100% podem não ser suficientes… mas eu acredito, estou trabalhando, tenho alma, garra e coração!
PJ - Em 2007, você competiu um peso acima (leve) e obteve bons resultados, o que te motivou a retornar ao peso meio leve?
JR - O fato de não ter ido à Olimpíada de Pequim, em 2008, de não ter conseguido a qualificação olímpica teve um peso enorme na decisão de retornar a categoria meio leve (-52 kg). Claro que a minha decisão não se fundamentou apenas nesse ponto, nesse insucesso. Foi uma decisão ponderada, tive aconselhamento de treinadores, nutricionistas, fiz exames de avaliação corporal.
Ficou comprovado que o meu corpo poderia se manter em 52 quilos sem comprometer a minha saúde física e que os níveis de força e resistência necessários para me impor à categoria leve (-57 kg) seriam incomputáveis para a minha estrutura óssea. Assim sendo e apesar de alguns resultados expressivos que consegui no período de 2007 ate meio de 2009, neste peso (que ficavam muito aquém, na verdade, daquilo que eu ambicionava), resolvi arriscar e voltar para o limite de 52 quilos de novo, mas não, sem antes garantir que teria apoio na área de nutrição. De qualquer forma, esse período no peso leve foi extremamente importante para mim, para a minha evolução enquanto atleta. Do ponto de vista psicológico foi libertador, parei de sofrer com a perda de peso, competir tinha deixado de ser um castigo, a minha dieta ficou muito mais equilibrada e variada, aprendi a comer, até já conseguia estudar melhor. Melhorei o meu judô, especialmente no ne waza, aumentei muito a resistência de força explosiva, porque a minha cabeça parou de estar preocupada com a extenuante tarefa de perder peso a cada competição e me preocupei mais em treinar com qualidade e a ter prazer em competir.
PJ - Você está na 10ª posição (com os descartes) na classificação para os Jogos Olímpicos de Londres como está sendo o seu treinamento, está confiante que conseguirá estar em Londres?
JR - Em teoria eu já estou em Londres, porque matematicamente já não será possível eu ficar de fora, agora só espero conseguir treinar ao mais alto nível sem ter nenhuma contrariedade. Há coisas que a gente não controla.
Nesse momento a equipe portuguesa está preparando o Campeonato Europeu, mas nem eu, a Telma ou o João Pina está fazendo um treino demasiadamente específico agora tendo em vista esse campeonato, porque já garantimos a vaga.
PJ - Os estudos e os treinamentos estão em sintonia, está conseguindo conciliar a faculdade de Direito com os treinos de judô?
JR - Em 2009 ainda deu certo esse binômio Judô/Faculdade, mas desde que vim treinar em Lisboa, em 2010, os estudos estão em “stand by”.
PJ - Tem realizado algum treinamento específico focando alguma adversária em especial?
JR - Tenho essencialmente treinado muita técnica para me aperfeiçoar, para melhorar o meu Judô em particular.
Claro que sempre que tenho dificuldades em lutar com determinada adversária, tento estudar o seu Judô, para averiguar a melhor forma de superar essas dificuldades. Não ando a dormir, sei as técnicas que fazem, os seus pontos fortes, mas também não perco muito tempo a pensar nas outras.
A minha filosofia de treino é a de me preocupar muito mais com o meu aperfeiçoamento individual, tentar a cada treino e a cada dia evoluir técnica e taticamente, ordenando a minha forma de lutar, de modo a que no dia da competição tudo faça sentido. Preocupo-me muito mais com isto do que em fazer o antijudô das minhas adversárias. Treino pensando em mim e não nelas.
PJ - Para você, quais são as adversárias mais duras em sua categoria?
JR - As asiáticas.
PJ - Hoje, Portugal tem a campeã mundial Telma Monteiro como referência, como se encontra realmente o judô luso? Quem são os atletas que têm condições de conquistar medalhas em Londres?
JR - Esta é uma pergunta de resposta muito complexa. Não conheço nem sou detentora de todos os conteúdos para lhe formular uma resposta elucidativa e completa sobre o estado do Judô Luso. Ainda assim, vou tentar responder da melhor maneira, que me é possível.
Portugal está passando por dias muito difíceis em vários níveis. Enfrenta problemas essencialmente econômicos, mas que rapidamente abrangem várias áreas: política, social, educacional, em nível da saúde… De modo que, se eu for falar em pouco investimento ou má gestão, sem ter em conta os contornos da situação real do nosso país posso estar tratando o assunto de uma forma demasiado leviana.
Vou pegar em dados concretos. No Judô português temos uma seleção sênior forte, que se impõe internacionalmente em provas de altíssimo nível, sendo a Telma Monteiro e o João Pina os expoentes máximos da nossa seleção. No entanto, é uma seleção cuja média etária deverá rondar os 29/30 anos, ou seja, com reservadas perspectivas de continuidade no próximo ciclo olímpico.
Há novas promessas do judô português, com qualidade, trabalhadoras, detentoras de muito talento e vontade, mas ainda com pouca experiência internacional.
Será necessário, da parte da Federação Portuguesa de Judô um investimento avultado nessas promessas, para que possam estagiar e competir fora, oportunidades fulcrais que eu e a minha geração tivemos, para que estas se consigam impor internacionalmente e se motivem a buscar grandes resultados. É esse investimento que não sei se será possível nos anos vindouros, numa equipe completa. Caso isso não aconteça, depois desta equipe sênior, receio que o Judô Português enfrente dificuldades de renovação de expoentes e que isso traga consequências negativas para o estatuto de Portugal no “mundo Judoca”, para o estatuto do Judô, em Portugal, e também em termos de representação olímpica do meu país e do nosso desporto.
Quanto a medalhas olímpicas para o Judô Português, penso que qualquer um dos judocas lusos já apurados tem dado provas que elas podem constituir muito mais do que um sonho e que o sonho se poderá materializar numa conquista. Acho que é uma possibilidade real e que qualquer um de nós pode conquistar uma medalha olímpica. Mas uma coisa é ser possível, outra é efetivamente conquistar, naquele dia, naquela prova, a medalha mais importante de sempre.
PJ - Além da Olimpíada, quais as competições que projeta participar ainda este ano?
JR - Esse ano quero fazer ainda, para além da Olimpíada, o Europeu e os Campeonatos nacional por equipes e individual.
PJ - Para você, o topo de sua carreira seria conquistar o primeiro lugar em uma Olimpíada ou em um Campeonato Mundial?
JR - Qualquer medalha numa dessas provas é um marco na carreira de qualquer atleta, se for de ouro então, é lógico que é o topo. Há que destacar a relevância da Olimpíada, uma medalha olímpica vale sobre todas!
PJ - Claro que ainda está muito longe, mas você já pensou o que fará depois que deixar os tatames, se continuará ligada ao judô ou trabalhará na área jurídica já que estuda Direito?
JR - Já pensei, penso bastante nisso, eu sei que vai ser difícil me desligar do Judô… duvido muito que isso aconteça (risos).
Eu costumo dizer que não existem ex-judocas, existem ex-atletas. Quem é judoca verdadeiramente nunca deixa de ser… o Judô é uma aprendizagem constante, um aperfeiçoamento constante, é dar e receber… a filosofia do Judô vai me acompanhar por toda a minha vida em tudo o que eu fizer, nas minhas relações, no meu trabalho, na forma como encaro as coisas, ultrapasso os problemas.
Para além de representar o Sporting Clube de Portugal como atleta, também estou trabalhando como professora de formação nesse clube.
Sei que quero terminar o curso de Direito com mestrado em Direito da família.
Mas eu vou continuar treinando e competindo enquanto o meu corpo corresponder positivamente, eu me sentir feliz e realizada com a minha atividade.
Eu sei que sou perseverante, dedicada e batalhadora. Não tenho medo de desafios nem de coisas difíceis… é tudo o que eu sei…
PJ - Para encerrar, deixe algumas palavras para os seus fãs.
JR - Deixa-me ver… o que é que eu poderia querer partilhar com o “mundo”, que reflita a minha evolução em 30 anos de vida?
Não tenham medo da vida, de chorar, de perder, de rir, de ganhar… tenham coragem de se entregarem, de lutarem pelos vossos ideais e objetivos, de seguir o vosso coração… mesmo contra o mundo… Sonhem sem fronteiras, amem sem limites… trabalhem o triplo disso tudo e sejam felizes!

























