No judô, como no xadrez, tanto o tatame como o tabuleiro podem ser considerados campos de guerra. Neles, o objetivo é chegar ao xeque-mate — palavra persa que significa “morte ao rei” — e derrotar o adversário. A semelhança entre a arte marcial e o milenar jogo de estratégia, ambos tão distintos em suas regras, deixam os dois cada vez mais próximos na capital.

Os irmãos Luciano e Helmer Gonçalves: judocas no dia a dia e enxadristas nas horas vagas
Em algumas academias de judô, os peões e o tabuleiro ficam, muitas vezes, em cima do tatame. O xadrez virou um aliado dos atletas por uma razão muito simples: O esporte pode não proporcionar alto gasto calórico e nem fortalecimento da musculatura, mas seus benefícios no aumento da capacidade de concentração e da autoconfiança são essenciais para um bom resultado na hora do combate. “A arte marcial é extremamente estratégica e você depende disso para ganhar uma luta. O xadrez estimula a velocidade do raciocínio, essa coisa de você pensar rápido”, defende o sensei Luciano Gonçalves, que já soma mais de 34 mil partidas jogadas na internet, cada uma com quatro minutos de duração.
“O jogo de xadrez é uma mistura de artes, ciência e esporte. É o jogo mais antigo que a humanidade conhece e nada mais é do que uma guerra em que se utiliza estratégia e tática. Tem que ter concentração, energia, aplicação técnica e aspecto competitivo”, afirma Lincoln Lucena, presidente da Associação de Xadrez de Brasília.
Atual campeão brasileiro de xadrez da categoria sênior, Lucena praticou boxe e judô na juventude. “Vejo uma proximidade entre eles e o xadrez, sem dúvida”, conta. Tanto que chegou a dar aulas ao judoca brasiliense bicampeão pan-americano José Mário Tranquillini, que não teve tanto sucesso nos tabuleiros quanto com o quimono.
“Você tem que treinar com pessoas melhores, no xadrez e no judô, para crescer. Buscar desafios”, recomenda o sensei Luciano. Mesmo sem contato físico, a atividade com as peças deixa os praticantes no chão. “Você cansa muito fisicamente, mesmo sendo um exercício puramente mental. Se você joga muitas partidas é igual a fazer várias lutas. Você fica acabado”, explica Luciano.
O respeito pelo xadrez no universo das artes marciais vai além do judô. Os praticantes de jiu-jítsu costumam chamar a luta de xadrez do corpo. Do outro lado, a simpatia também existe. Tanto que o maior enxadrista brasileiro, Henrique Mecking — mais conhecido como Mequinho —, que chegou a ser o terceiro melhor do mundo na década de 1970 (atualmente está afastado do xadrez), treinou caratê durante muito tempo para obter condicionamento físico para as partidas mais longas.
“Muitas pessoas acham que quem luta é ogro. Chegam a chamar lutador de pão de forma: tem casca grossa e miolo mole. Mas não é bem assim. A gente estuda”, diverte-se Luciano, achando graça do preconceito. “Eu comprei um jogo de xadrez no Japão e deixo lá na academia para os garotos jogarem. Sempre, no intervalo de uma aula e outra, começo a ensinar o básico quando eles têm 9 anos. Aos 11, a gente ensina estratégia de jogo. Muitos deles tomam interesse e acabam estudando a modalidade”, relata.
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