Mais que conquistas dentro do tatame, o judô, para o esportista, é filosofia de vida. A arte marcial - da qual é detentor de cinco títulos mundiais - além dos benefícios físicos e psicológicos, propicia o fôlego para novos desafios
O esporte como mola propulsora para a transformação social. Essa é a principal bandeira defendida por Artemio Caetano Filho. Petacampeão mundial de judô, o atleta está nos tatames há quase quatro décadas e há mais de 20 anos é vinculado à Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (Semel), onde atua como técnico. Ele acredita no esporte, sua paixão confessa, como incentivo para a formação de atletas e, principalmente, cidadãos. Mas também aposta na atividade política para transformar realidades. E diz estar pronto também para esta luta.
Coordenador do projeto “Judoquinha”, iniciativa social que atualmente beneficia cerca de 1,2 mil jovens em 11 núcleos localizados em comunidades de baixa renda da cidade, por meio da inicialização ao esporte, nos princípios de educação e cidadania, Artemio também se empenha, há quatro pleitos, na tentativa de ocupar uma cadeira no Legislativo municipal.
Apesar de ainda não ter conseguido se eleger, o esportista, que é filiado ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), se diz pronto para continuar na luta política, munido, principalmente, da persistência, uma das virtudes que adquiriu após anos nos tatames. Porém, o trabalho junto ao Poder Público poderá se tornar realidade antes mesmo do próximo pleito, justamente, por meio do esporte.
Cotado para assumir a chefia da Semel, o esportista, como bom lutador, apesar de tentar esquivar sobre o assunto, admite vontade de comandar a pasta e enumera algumas metas de trabalho que adotaria, caso, efetivamente, seja escolhido pelo prefeito eleito Rodrigo Agostinho (PMDB) para encarar o novo desafio.
Jornal da Cidade - Como foi o início de sua trajetória no esporte e de que forma optou pelo judô?
Artemio Caetano Filho - Iniciei a minha carreira como atleta no Sesi (Serviço Social da Indústria), quando foi inaugurado, em 1969. Simultaneamente, praticava diversas modalidades, sempre gostei muito de esporte. Também fazia natação no BAC (Bauru Atlético Clube), mas no Sesi fazia basquete, vôlei e futsal também. O judô era apenas uma dessas modalidades. Com o tempo, fui traçando prioridades, aumentei minha carga de treinamento no judô e os resultados começaram a aparecer.
JC - Mas escolheu o judô por qual motivo?
Artemio - Sempre gostei muito de esporte e pratiquei muitas modalidades, algumas mais radicais ou alternativas, como o pára-quedismo ou mergulho. Mas o judô foi uma identidade à parte, com muita afinidade, pela parte da disputa em si. A luta me animava muito. Fui um menino bastante ativo e acho que o judô é o que conseguia equilibrar melhor essa energia toda que eu tinha. Então, a partir de 1971, quando aconteceu a minha primeira classificação em campeonato paulista, eu já comecei a dedicar uma atenção um pouquinho maior a essa prática e vieram resultados expressivos. Eu citaria aí dentro do rol de principais atletas com quem competi, lutadores olímpicos como Douglas Vieira, que venci seis meses antes dele ir para uma Olimpíada, venci Rogério Sampaio, venci Luís Omura. São dez títulos nacionais, além do tricampeonato pan-americano e sou pentacampeão mundial, títulos esses conquistados no Japão, em 2003, Canadá, 2005, França, 2006, Brasil, 2007, e agora, em 2008, na Bélgica.
JC - Para muita gente, o esporte é encarado como hobby. No seu caso, a prática esportiva está ligada à vida profissional. O que você faz para desligar um pouco e relaxar?
Artemio - Hoje, o meu principal hobby, vamos dizer assim, é ficar com as minhas filhas. Tenho quatro filhos e dois netos e, atualmente, convivo mais de perto com as duas filhas menores. Dedico boa parte do meu tempo livre a elas. Esse período é dedicado ao que elas quiserem fazer e faço com muito prazer.
JC - O que as suas filhas gostam de fazer?
Artemio - Graças a Deus, gostam muito de água, igual a mim. Então, nós estamos sempre num clube, numa piscina. Elas gostam muito de natureza, estamos sempre numa chácara, numa fazenda, num passeio rural, é nessa linha que a gente se diverte.
JC - E o trabalho social, de que forma começou?
Artemio - O meu primeiro projeto funcional aconteceu na minha própria academia, quando eu comecei a acolher crianças que não tinham condições de pagar mensalidade. Uma história boa é a da Renata Pereira da Silva (que coleciona um portfólio invejável de mais de 300 medalhas), praticamente a primeira que eu adotei nesse esquema. Ela ficava assistindo aos treinos da porta da academia, eu oportunizei treinamento, dei o quimono. Posteriormente, ela ficou por sete anos na Seleção Brasileira, foi tricampeã sul-americana, conheceu diversos países, competiu bastante pelo Brasil. O primeiro projeto, no Geisel, foi estabelecido em parceria com a Renata, que já era faixa preta de terceiro grau. Isso aí em 95, oficialmente, mas antes disso eu já tinha ministrado aulas nesses moldes no Centro Social Urbano e , antecedendo ainda esse período, tive esses alunos esporádicos, bolsistas, na academia que eu sempre tive. Atualmente temos o apoio de alguns parceiros: Associação Bauruense de Empresários Socialmente Responsáveis (Abesor), VCI-Brasil, a Editora Alto Astral, o Instituto de Olhos de Bauru (IOB) e a Ecom Tecnologia.
JC - E da forma que você conduz suas pretensões políticas, o esporte é sempre sua principal bandeira?
Artemio - Eu sempre defendo o esporte como o principal meio transformador da nossa sociedade. Parece assim um pouco radical essa linha de pensamento, mas, no nosso País, eu acredito que a força não está tanto na educação, principalmente na educação pelo governo. Eu vejo o esporte, e cito bastante isso, como um instrumento transformador. O esporte bem praticado, sem dúvida alguma, leva essas crianças a serem pessoas melhores, bons cidadãos, que aprendem condutas de sociabilidade, de respeito, de ética. Então, a minha bandeira é a fomentação do esporte nessas comunidades mais carentes. Hoje, estamos vendo Bauru passar por uma situação de pichação. O que fizemos nas nossas comunidades? Estamos iniciando uma campanha contra isso, com muita conversa, com muito diálogo, colocando o que leva a tudo isso. Existe uma minipalestra nessas aulas que ministramos, sempre enfocando alguma coisa onde possamos levar um pouco mais de educação e de cidadania através do esporte. Minha bandeira sempre foi essa na política também, eu acho que temos cada vez mais trabalhar para que o País seja mais esportista, porque com certeza ele vai ser um País melhor para se viver, essa é a minha bandeira política, isso eu faço já há quatro eleições. Hoje, eu estou no PTB, eu fui convidado pelo presidente do partido, Ricardo Oliveira, e graças a Deus estou abrindo boas portas no partido através do meu padrinho político, que é o secretário de esportes do Estado, Claury Alves da Silva, bem como Campos Machado e, através dele, estamos conseguindo inclusive trazer para Bauru um grande sonho que eu tenho, que é o Centro de Excelência Esportiva na modalidade.
JC - A que passo anda a implantação do centro? Está tudo certo para que seja instalado na cidade?
Artemio - Está. Tivemos uma reunião com o governador José Serra, ele autorizou, formalizou a instalação desse Centro de Excelência Esportiva, foram quatro centros que foram destinados ao Interior de São Paulo e nós fomos agraciados com um deles (os outros são Presidente Prudente, Rio Claro e Bastos).
JC - Cada cidade com uma respectiva modalidade.
Artemio - É, no caso do judô, a modalidade foi agraciada com dois (centros), Bauru e Bastos.
JC - E como será o trabalho nesses centros?
Artemio - O objetivo é a formação de atletas de alto nível para competições internacionais, campeonatos mundiais e olímpicos. São adolescentes a partir de 13, 14 anos de idade, até os 18, que vão passar por uma seletiva. A partir disso, eles vão integrar o Centro de Excelência que, evidentemente, é para um número limitado de, no máximo, 50 adolescentes. O treinamento é especializado, semi-personalizado, onde vão receber toda a manutenção aqui na cidade, com completa assessoria técnica para o treinamento. Vão ter nutricionistas e psicólogos à disposição, bem como alimentação e quimono, enfim, vamos procurar colocar toda a infra-estrutura, tanto material quanto humana, para que eles tenham bons rendimentos e bons resultados.
JC - Para você, a chave da boa formação do cidadão está ligada, diretamente, a alguma forma de incentivo ao aluno, seja pelo esporte ou a cultura, por exemplo?
Artemio - Exato. Eu vejo assim. O esporte, a cultura, eles precisam ser colocados mais à disposição dessas comunidades carentes. É através dessas práticas que a criança já não vai pensar ou fazer coisas erradas. Paralelamente, aprenderá coisas boas, e ocupará a cabeça com isso. O esporte praticado, saudável, de comunidade, e mesmo esse esporte voluntário como a gente vê aí, ele é algo extremamente salutar não só no aspecto orgânico, mas principalmente na cidadania. O nosso foco, nesse caso, não é a competição, mas o trabalho social, é o envolvimento do maior número possível de pessoas da comunidade. Inclusive a faixa etária é bem distinta, vai de 5 anos até adulto em alguns dos projetos, para que a gente consiga levar a nossa mensagem, que está incutida na nossa filosofia. Temos todos os nossos preceitos lá, todos eles são de cidadania, respeito, ética, disciplina, coisas que a gente carece muito neste País, talvez por não ter uma identidade milenar.
JC - Trabalhos sociais e até mesmo seu envolvimento na implantação do Centro de Excelência, acabam por remeter à política. O que você acha que precisa ser feito em futuras campanhas eleitorais, para que sua candidatura emplaque e você entre na Câmara?
Artemio - Boa pergunta (risos). Gostaria de saber responder com mais facilidade. A minha vida é muito corrida, envolvida com esses projetos todos, talvez eu não tenha conseguido ainda tratar a coisa mais com o tom político.
JC - Teria faltado a política propriamente dita…
Artemio - É, eu acredito que falta um pouco mais de política na minha esportividade.
JC - Você tem a oportunidade de trabalhar na próxima administração, com a possibilidade de assumir a Semel.
Artemio - Ainda não existe nada disso. O fato é que o PTB está ajudando o prefeito eleito, Rodrigo Agostinho. Participamos da campanha e participamos ativamente dessa fase de transição. Mas respeitamos a decisão pessoal dele, sabemos que a Secretaria de Esportes é uma pasta importante. Sem dúvida alguma, ele (Agostinho) considera todas as possibilidades, tanto políticas como as de competência, e apesar do meu nome ter sido citado várias vezes, isso é uma citação pública, não é uma citação dele. É algo que tem de ser aguardado com muita tranqüilidade, porque a decisão cabe a ele, e confiamos bastante que o Rodrigo vai fazer uma boa administração e vai ter uma “tropa” boa trabalhando ao seu lado.
JC - Mas caso a decisão seja mesmo pelo seu nome, como você vê a possibilidade?
Artemio - Olha, eu não nego que sempre tive a vontade de trabalhar na Secretaria de Esportes, assim como não nego que também tive sempre o desejo de abrir portas através da política. Nosso trabalho é um tanto quanto limitado enquanto você faz sozinho e todas as possibilidades que vêm somar ao que podemos fazer são bem vindas. Então, uma Secretaria de Esportes, sem dúvida alguma, iria alicerçar não só o trabalho que eu faço, mas o meu conhecimento na área do esporte, a minha vontade de fazer um pouco mais por esse segmento importante. Jamais neguei esse desejo de poder ter a oportunidade de trabalhar em funções onde eu consiga realizar um pouco mais.
JC - Bauru tem grande potencial esportivo, é celeiro de vários atletas, mas sofre com problemas estruturais, não?
Artemio - Sem dúvida. Eu acho que, qualquer que seja o secretário de Esportes, terá que se preocupar em primeiro lugar com essa infra-estrutura. Não vejo nesse momento assim como prioridade, por exemplo, para colocarmos um grande time em campo, comprado, e não termos uma estrutura de manutenção, uma estrutura física mínima para dar uma cobertura para essas modalidades. Acho que tudo precisa ser recomeçado, repensado e refeito. Teria que ser um trabalho de base inicialmente, a gente tem, num primeiro momento, que descobrir o que já existe, porque há muita coisa não oficial, muito voluntariado e todas essas pessoas que fazem um bom trabalho. Precisamos ajudar e reconhecer. Vamos aproveitar o que já existe de saudável, o que já existe de praticável.
JC - A institucionalização do voluntariado seria um dos caminhos?
Artemio - Exato. Projetos como o nosso existem aí de monte, temos conhecimento de diversos. Alguns são bem organizados e outros totalmente desorganizados, com falta de estrutura total, feitos na boa vontade de algumas pessoas. Conheço muita gente que faz numa boa vontade tremenda, colaboro com alguns desses projetos, inclusive, o de futebol na região do Redentor e do Geisel. Acho importante que acompanhar e participar. Precisamos ter esse conhecimento, ter um diagnóstico do esporte que é feito em Bauru, em todos os âmbitos. Mas, como prioridade, eu vejo a recuperação dessa infra-estrutura, dos estádios distritais e dos ginásios de esportes, para, posteriormente, numa etapa seguinte, se preocupar com a montagem dessas equipes de competição, oferecer condições para que as equipes sejam realmente combativas, não que participem meramente como coadjuvantes, e também se preocupar até possivelmente de trazermos para Bauru, novamente, os Jogos Abertos do Interior, que desde 1970 não acontecem aqui. Muitas coisas são sonhos, mas pretendo que sejam metas.
Perfil
• Nome - Artemio Caetano Filho
• Idade - 51 anos
• Local de nascimento – Bauru
• Filhos - Aimee, Lara, Arthur e Thaís
• Netos - Gabriela e Henrique
• Hobby - Fazer tudo o que as filhas gostam
• Livro de cabeceira - Sanshiro Sugata
• Filme preferido - “Perfume de Mulher” e “O Último Samurai”
• Estilo musical - Rock, blues e jazz
• Time do Coração – Palmeiras
• Para quem dá nota 10 - Para Aimee e Lara; e nota “11” para os meus pais
• Para quem dá nota 0 - Osama Bin Laden
Luiz Beltramin
GRATO PELA DIVULGAÇÃO.